
Embora o nome de Vladimir Nabokov esteja intimamente ligado a seu romance de maior pompa e conhecimento, Lolita, a vida do escritor russo certamente não se restringe a uma única obra, tema ou proposição conceitual.
Nascido em São Petersburgo (1899), filho de bolcheviques, se viu às voltas com a revolução, o que lhe obrigaria a mudar de cidade, estabelecendo-se em Berlim, onde em 1926 faz seu debut literário, com o lançamento de Maria, um romance de considerável acolhimento pela crítica. Ainda por questões políticas, fugindo de nazistas, reside brevemente em Paris e então, no ano de 1940 chega aos EUA.
15 anos depois, em meio a dúvidas editoriais, lança sua obra de maior reconhecimento: Lolita. Duas vezes adaptada para cinema por Kubrick e Adrian Lyne, estabelece um cânone para sua vida e o possibilita a entrada inconteste no hall dos grandes nomes da literatura mundial, ao apresentar a história de atração entre o professor Humbert Humbert e sua enteada, de 12 anos, Dolores Haze, apelidada com o nome da obra.
...mas a vida de Nabokov também tem lá seu lado B. Recententemente, em 2008 e após longos anos de apreensão, Um Original de Laura, uma de suas obras mais misteriosas, veio à tona. Seu filho Dmitri Nabokov anunciou que publicaria o texto.
A obra trata-se, em si, de um manuscrito novelístico incompleto, produzido pelo autor em meados da década de 70. Primeiramente chamado de Morrer é Divertido, passando por A Oposição de Laura até o título atual, o livro marca um momento de intensa enfermidade do autor, que morreria pouco depois deixando o trabalho inacabado. Ainda em vida, Nabokov afirmou que categoricamente que a obra deveria ser queimada. A partir daí começa a grande história do livro em si.
Vera e Dmitri Nabokov, respectivamente mãe e filho, ficaram no encargo de guardarem a obra e/ou queimá-la. Temendo sua publicação, prenderam-na num cofre na Suiça (país onde o autor morreu). Em 1991 Vera morre, restando apenas Dmitri como responsável pelas obras do pai. Uma discussão se inicia, envolvendo escolares e publicações de todo o mundo, incluindo a revista britânica Times. Conhecido por sua natureza peculiar, Dmitri assume primeiro plano na história. Playboy, cantor de opera, apaixonado por corridas e aventuras radicais, foi apelidado por Lolito pela imprensa italiana. Façanhas como sobreviver de uma queda de 30 metros, até escapar de um hipotético asteroide no México, acrescentaram a ele um valor midiático notável, culminando num romanesco fim, em 1980 quando destruiu sua Ferrari em uma estrada na Suiça, ficando restrito à locomoção por cadeira de rodas.
Posteriormente, o próprio Dmitri afirmaria ter sonhado com o espírito do pai, que lhe aconselharia a finalmente publicar a obra. Não menos atraente é a história do lançamento. Nikki Smith, agente literária das obras de Nabokov há anos foi substituída por Andrew Wyle, conhecido por ser “ladrão de clientes”. A estratégia de publicação contou ainda com um acordo milionário com a revista Plaboy norte-americana, que apresentaria 50% da obra em suas páginas, e um contrato com as editoras Alfred A Knopf e Penguin, duas gigantes do mercado editorial. No Brasil, a versão fica por conta da editora Alfaguara.
De toda a história, um ponto é talvez o mais digno de nota. Conhecido por ser extremamente perfeccionista, Nabokov achava que o manuscrito não estava a altura de seus outros textos. Curto e produzido em um momento de insanidade do autor, a obra certamente não é sua obra-prima, mas traz uma essência autoral em seu enredo. Três personas dividem o primeiro plano. Philip Wild, um estudioso casado com Flora, ousada e promíscua tendo se aproximado do marido em virtude de uma paixão não correspondida deste com Aurora Lima. A partir daí, o autor coloca a temática da morte (encarnada na preocupação de Philip), enebriando os leitores em um trecho onírico e por fim, incompleto.
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