
É triste que Fábio Barreto ainda esteja internado na UTI do Hospital Copa D'Or, no Rio de Janeiro. O cineasta está sendo mantido sob coma induzido desde 19 de dezembro, quando seu carro capotou depois de bater em uma mureta no bairro Botafogo. Imagino que para um realizador, nada dê mais prazer do que ver seu filme em cartaz. E Barreto não pode ver Lula, o Filho do Brasil entrar em circuito.
É uma obra para ser assistida sem pretensões políticas. Aqueles que forem ao cinema esperando uma história que dê enfase ao Lula sindicalista, agitador político, de declarações polêmicas, irá se frustrar inevitavelmente. O filme (baseado em livro homônimo de Denise Paraná) trata, basicamente, do Luiz Inácio: a vida pessoal, os amores, as tristezas. O Lula fica de lado, é mencionado e mostrado, mas sempre sobre um viés emotivo.
Vemos a história de Luiz Inácio desde antes dele nascer, quando o pai, Aristides (Milhem Cortaz, em excelente atuação), deixa Caetés, Pernambuco, rumo a Santos, São Paulo, levando uma amante consigo. Lindu (Glória Pires) fica com seus seis filhos e logo nasce o sétimo, Luiz, que cresce sem conhecer o pai. Um dia, graças a uma carta, a mãe decide ir para Santos encontrar o pai. Daí em diante, acompanhamos a vida pobre que o futuro presidente teve e nos envolvemos com tudo que lhe acontece, graças às câmeras cheias de sensibilidade dirigidas por Barreto.
A mãe de Lula, Dona Lindu, é praticamente o centro da narrativa. Apesar de não ser a protagonista, praticamente todo o filme gira em torno dela, suas reações, seu apoio ao filho. Glória Pires, em uma de suas melhores atuações da carreira, encarna de maneira emocionante a mãe que diz ao filho para "teimar" sempre. É uma mãe comum, com as preocupações de sempre, e não é difícil para o espectador enxergar nela a própria figura materna.
De fato, uma característica que perpassa todos os personagens da história é o fato de que é muito fácil para o público se identificar com eles, já que são todos pessoas comuns, sem nada de mais, mas isso é feito sem que se caia nos famigerados clichês. Isso nos mostra que desde O Quatrilho, dirigido por Barreto em 1995, o diretor permanece com a mesma intenção norteando suas produções: criar cumplicidade com seus espectadores.
Para isso, ele usa de maneira sábia todos os recursos que o cinema lhe permite. Os diálogos são econômicos, as palavras comedidas. Fala-se, praticamente, apenas o necessário para a trama avançar, sendo usadas, prioritariamente, as imagens e a sonorização para contar a história. E estes são feitos de forma muito poética e inteligente.
A trilha sonora instrumental está presente (ou ausente) nos momentos de tensão e emoção, para que quem assiste possa sentir junto com os personagens a ação da tela. Com a mesma função são utilizadas as músicas incidentais: quando Lula beija o rosto da jovem Lourdes, numa demonstração de agradecimento, o rádio de pilha do vizinho toca Meu Primeiro Amor; num baile toca Sentimental Demais, de Altemar Dutra, quando ele dança com uma moça; quando ele dança com Lourdes (Cléo Pires), ouvimos a música Você, de Tim Maia e daí em diante, em diversos momentos.
O som ambiente também é captado e reproduzido com capricho. Numa cena em especial, quando Lula dorme num sofá e acorda cedo, ouvimos os sons de bem-te-vis e galos cantando, sendo transportados diretamente para uma manhã nascente num subúrbio paulista. Em alguns momentos de tensão, percebemos a influência da televisão: há um som, um zunido que representa a ideia de vácuo que, juntamente com o congelamento de imagem, contribuem para a ideia de que o tempo parou, algo que vemos especialmente em filmes norte-americanos de ação.
Assim como o som, o movimento de câmera também contribui bastante para dar carga dramática às cenas. Um recurso utilizado com frequência nesse filme é o primeiríssimo plano, com close-ups bem fechados dos rostos dos personagens, captando suas reações, como na cena em que o menino Lula chora abraçado à mãe e vemos em detalhes a lágrima escorrer pelo rosto ou quando Aristides, enfurecido, grita contra Lindu à distância e vemos sua fúria em detalhes, com direito a cuspe e tudo.
A montagem é toda muito bem feita. Os cortes são precisos, bem medidos. E a opção do diretor de usar reportagens e imagens da época, tanto em preto e branco quanto coloridas, dão mais dinâmica e verossimilhança à obra. Nesse sentido, merece destaque a reprodução da famosa reunião do sindicato feita num estádio de futebol em 1979, que reuniu cerca de 80 mil metalúrgicos. Enquanto mostra Lula (Rui Ricardo Dias) discursando, Barreto aponta a câmera para a multidão, mas não vemos a multidão de figurantes que ele reuniu num estádio e, sim, as imagens que foram filmadas durante a reunião, por câmeras da época. Ele faz isso durante toda a reunião e em muitos momentos do filme, sendo que, em certas partes, faz a transição de forma tão rápida que ficamos na dúvida se estamos vendo atores ou os reais protagonistas dos acontecimentos históricos. Câmeras tremidas, imagens granuladas e em preto e branco também tentam nos passar uma ideia documental na tela.
As elipses de tempo do filme também são bem interessantes. A aparência dos personagens, as roupas que vestem, são mecanismos que mostram ao público que o tempo passou. Num certo momento, o jovem Lula chega perto do torno mecânico e a câmera fecha na peça na qual ele está trabalhando. Quando o enquadramento se abre novamente, temos um Lula de barba e bigode, com macacão de cor diferente e num cenário muito maior: o futuro presidente agora trabalha numa grande fábrica do ABC paulista.
Por fim, não pode passar despercebida a atuação do estreante Rui Ricardo Dias. O mineiro mostra, por meio de sua atuação sutil, comedida e que não deixa de ser passional, um Lula que evolui de um jovem torneiro mecânico para um representante sindicalista. Quando o público dá por si, ele se transformou no Lula que começamos a conhecer em 1980. É uma progressão muito natural, que não cai no caricatural, algo que precisa ser aplaudido já que imitações do presidente não faltam por aí e seria muito fácil para o ator se deixar levar, até sem perceber, pelo ridículo. O Luiz Inácio que Dias encarna é um homem qualquer, com uma história comum, que não tem nada de extraordinário, fora o fato de que terminou de um jeito peculiar.
E é exatamente essa a ideia que Barreto quer nos passar: que independente de ser o presidente do Brasil, Lula poderia ser qualquer um de nós, sofrendo das mesmas alegrias e tristezas pelas quais muitos de nós também passaram. Lamentável que o diretor não possa, pelo menos nesse momento, ter contato com seu público pessoalmente e sentir a reação deste à sua obra. Torçamos para que ele possa se sair bem desse problema de saúde e tenha um futuro profícuo.
Lula, O Filho do Brasil
Dirigido por Fábio Barreto (2h08min)
Saiba onde está em cartaz

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.

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