
Desacordo Ortográfico não é apenas uma antologia. Lançado no final de 2009, pela Não Editora, o livro celebra ao longo de 20 textos a pluralidade da língua portuguesa e a versatilidade de seus autores.
Organizado por Reginaldo Pujol Filho (que também está presente em texto), conta com a colaboração de: Altair Martins, Cardoso, Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Luandino Vieira, Luis Fernando Verissimo, Luís Filipe Cristóvão, Manoel de Barros, Marcelino Freire, Maria Valéria Rezende, Nelson Saúte, Olinda Beja, Ondjaki, Patrícia Portela, Patrícia Reis, Pepetela, Reginaldo Pujol Filho, Rita Taborda Duarte, Rogério Manjate e Xico Sá.
O Opperaa conversou com Reginaldo sobre o projeto:
Na apresentação do livro, há um resgate sobre a fala de Mia Couto na Flip, e como foi descobrir autores brasileiros, embora houvesse predileção pelos portugueses em seu país natal. Neste sentido, há quantas anda o diálogo entre escritores de língua portuguesa de vários países e seus mercados editoriais? Há uma percepção visível deste cenário?
Olha, é um cenário que eu não consigo avaliar, até porque sou bem novo nessa história. Posso falar de duas percepções minhas: uma aconteceu no processo de seleção e contatos pro Desacordo Ortográfico. Me pareceu, pela fala de todos os autores, pelos e-mails trocados, que há uma alegria, uma grande abertura por parte dos escritores para esse intercâmbio. Mas isso é uma visão sobre o contato com 19 pessoas, não posso dizer que seja um panorama geral. Outra coisa que percebo, como leitor, é que a chegada de editoras como Alfaguara, Leya e outras tem aumentado a presença de autores portugueses nas livrarias do Brasil. Mas só de portugueses. Encontrar moçambicanos, angolanos, etc. Ainda é uma tarefa bastante complicada. E, mesmo assim, existem autores portugueses maravilhosos, com obra reconhecida em Portugal, sem a menor perspectiva de publicar por aqui. Falo de gente como o Luis Filipe Cristóvão, a Patrícia Portela, o João Pedro Mésseder e tantos outros. E penso que o mesmo acontece com muitos brasileiros.
Podemos dizer que houve um parâmetro (temática, data...) para a construção de Desacordo Ortográfico? Qual Foi?
Digo assim: houve um parâmetro objetivo e um subjetivo para a seleção do Desacordo.
O parâmetro objetivo era de que os autores estivessem vivos, porque, se não houvesse esse recorte mínimo, aí seria uma loucura, tinha que entrar Guimarães, Camões, Simões Lopes Neto, ia ser infinita a seleção e o livro nunca sairia, eu acho.
O critério subjetivo era o de que o texto do autor me causasse alguma coisa entre a estranheza e a fascinação pela forma, pelo estilo de escrever, pela escolha das palavras, pelo jeito das frases, pelo ritmo.
Algo marcante em Desacordo Ortográfico, e talvez perceptível a partir de uma sensação que transcende a leitura de todos os textos, é a questão da forma e metalinguagem. O tempo todo recursos linguísticos e uma reflexão sobre a escrita está presente ali. Como foi o trabalho de pesquisa para dar essa “liga” à antologia?
Pois é, confesso que eu não havia pensado na metalinguagem como um fator de seleção pro livro. A forma, sem dúvida que era importante, ou melhor, fundamental, com eu já disse na pergunta anterior. Mas talvez a presença de alguns textos metalingüísticos (me lembro agora do Luis Fernando Verissimo, do Marcelino Freire, do João Pedro Mésseder) seja conseqüência da busca por essa forma estranha, diferente, desses desacordos que são a base do livro. Mas como foi esse trabalho de pesquisa? Ótimo, pela quantidade de autores que li, reli, descobri ou redescobri nesse processo. Mas ao mesmo tempo cansativo, ou angustiante também, na medida em que às vezes eu lia um baita autor, com contos ou poesias ótimos, mas que não primavam por uma forma mais diferente. Descartar texto bom dá um nó na cabeça. E também foi um trabalho de pesquisa que envolveu muita gente, ou melhor, em que muita gente se dispôs a se envolver. Todos os que estão lá nos agradecimentos do livro em algum momento desse trabalho me deram uma dica de leitura, uma sugestão, um contato, sem o qual o livro não seria o que é.
Sobre questões genéricas, apresenta prioritariamente um aspecto prosaico, mas com momentos de grande lirismo, como no texto de Patrícia Portela e nos poemas de João Pedro Mésseder. Em que medida este equilíbrio foi importante para a obra?
Acho que é um equilíbrio que surge de tantas diferenças. Na hora de dispor os textos em forma de livro, um dos parâmetros adotados era o de que o leitor nunca encontrasse no texto seguinte uma coisa parecida com a que acabou de ler. Uma estética do espanto, ou da surpresa, sei lá, eu poderia dizer que norteou essa arrumação dos textos. E acho que, mais do que uma predominância do prosaico, o Desacordo tem momentos prosaicos, mas também experimentais, outros líricos, como tu apontou, outros regionalistas e por aí adiante. E é essa heterogeneidade que faz o conjunto. Se tudo fosse lírico, por exemplo, era Acordo e não Desacordo.
No caso específico dos autores brasileiros, são nomes de grande expressão. Eles sintetizam nosso atual cenário editorial? Por que a escolha específica deles?
Primeiro: o que é um autor de grande expressão? Pergunto isso porque em nenhum momento pensei nesse sentido de convidar “autores brasileiros de grande expressão”. Convidei sim autores que de alguma forma me inspiram a ver as palavras e o texto de uma forma diferente, com um olhar inusitado. O Mais palavreado do Veríssimo é um texto que eu leio desde guri e que sempre me fez ficar abobado com essa loucura de dar um significado fonético pras palavras. O Manoel de Barros é o Desacordo Ortográfico em pessoa. É um cara que inventa palavra, inventa forma de poesia, inventa assunto pra poesia, brinca com tudo isso. A Maria Valéria Rezende tem uma potência narrativa incrível. É um lirismo seco, duro, se é que isso pode existir, e existe no texto dela. Às vezes é regional, às vezes é urbano, sei lá. O Marcelino Freire é daqueles autores inimitáveis e inconfundíveis e tão diferente que conseguiu fazer uma coisa nova para o livro. O Xico Sá é um dos representantes do movimento do portunhol selvagem e isso é um jeito diferente de ver a língua, é uma busca muito profunda de linguagem. O Altair Martins é por natureza um questionador da forma, um inventor de linguagens. O que ele faz em livros como Se choverem pássaros, e Como se moesse ferro é algo realmente renovador. E tem o Cardoso que tem só um livro publicado, mas que não tem como não reconhecer o estilo e a pegada do texto dele.
É por isso e por muito mais que esses autores estão no livro.
Se eles sintetizam o nosso atual cenário editorial? Espero que não. Espero que o cenário editorial nunca seja sintetizável.
Interessados em adquirir a obra, já podem acessar informações sobre Desacordo Ortográfico no site da Não Editora. Um blog também foi criado para a publicação.
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Curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, com pós em Jornalismo e Cultura, amante de literatura, música e tecnologia.

Reunindo textos de 2006 a 2009, o autor lança Esquimó, uma obra de poemas, significações e múltiplas referências.

Com obra de repercussão significativa, o autor lança Dupla cilada Para Cross, seguindo o mesmo formato previsível de narrativas policiais.

Meu Tio é um romance lançado pela Cosac Naify que tem por base obra homônima de Jacques Tati
O Opperaa é uma revista de crítica de arte, criada no início de 2008. É pop e segmentada, local e global. Aqui, você encontra:
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