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Amor Sem Escalas

Clooney é um viajante solitário em Amor Sem Escalas

Cinema \ por Priscila Armani \ 28.01.2010

George Clooney e Anna Kendrick em Amor Sem Escalas (Up In The Air)

Em Amor Sem Escalas, (baseado em livro de Walter Kim e dirigido por Jason Reitman, aquele de Juno, lembra?) Ryan (George Clooney) é um executivo que trabalha numa empresa cujo principal serviço que presta é demitir pessoas. Basicamente, ele é contratado pelos chefes para ir lá e fazer o trabalho sujo por eles de mandar funcionários embora, de um jeito elegante e que estimule os empregados dispensados a seguir em frente com suas vidas. Esse emprego envolve viajar a maior parte do ano, por todo o Estados Unidos, o que faz dele grande colecionador de milhas aéreas e praticamente um "morador" de aeroporto. De fato, ele se sente em casa quando está viajando. 

Numa dessas muitas viagens, em uma parada na cidade de Dallas, ele conhece Alex (Vera Farmiga). Os dois se parecem muito, em todos os sentidos, especialmente quanto à decisão de não se envolverem emocionalmente. O combinado entre os dois é apenas sexo. Nada além disso. Depois de uma noitada, ele recebe uma ligação de seu chefe pedindo para voltar a Omaha, sua cidade natal, e, quando volta, não demora a bater de frente com a psicóloga Natalie (Anna Kendrick), nova contratação da empresa, responsável por cortar os gastos exorbitantes. 

Como não poderia deixar de ser, o filme mostra muitas imagens aéreas, de aeroportos de diversos lugares e hotéis de variados tipos. Para quem viaja de avião, o protagonista dá até algumas "dicas" de como ser atendido rapidamente nos guichês e detectores de metais. Reitman faz cortes secos e rápidos para mostrar como o personagem é ágil e se sente à vontade com todo o protocolo: abrir as malas, separar o notebook, tirar os sapatos, paletó, cinto e colocar tudo na bandeja de pertences pessoais. Ryan é um perito. Poderia fazer tudo de olhos fechados.

Clooney interpreta de maneira equilibrada um cara que escolheu um estilo de vida totalmente individualista e que poderia cair no clichê com uma enorme facilidade (mais pro final do filme, ele cai, mas resiste durante boa parte da projeção bravamente). Ele dá profundidade à determinação do personagem em não se envolver com ninguém ou se apegar a nada. Seu desejo de ficar só é um reflexo e uma crítica muito clara da sociedade contemporânea e do novo american way of live que vem sendo imposto a todos. A correria do dia-a-dia nos impede de aproveitar o que temos, então para que levar alguma coisa consigo? Como ele mesmo diz, melhor não levar nada na mala. Ryan é a própria personificação do "nowhere man". E isso tem sido cada vez mais comum, com a globalização ditando o ritmo.

A personagem de Kendrick também faz uma crítica, de maneira pouco sutil, à juventude atual. Quando ela diz que com 23 anos já se imaginava casada, com filhos, cachorro, papagaio e tudo mais a que tivesse direito, percebemos o quanto tem se tornado escassa a paciência de se esperar pelo carro novo, casa própria, celular com toda a tecnologia disponível. Os jovens querem tudo de uma vez. E para ontem. Além disso, consideram quem já tem mais de 30 como sendo velhos. Ultrapassados. Natalie fala pela sua geração. E como ela.

Destaque para a excelente trilha incidental do filme, muito voltada para o blues e o clássico rock 'n' roll. Temos desde Roy Buchanan até Graham Nash, passando por artistas contemporâneos como Sharon Jones and the Dap-Kings e Kevin Renick. E, graças a este último, deve-se assistir aos créditos até o final, que trazem a sua Up In The Air, uma das canções mais legais do filme. Legalzinho o jeito que ele achou de introduzir a música pro espectador, numa mensagem gravada em secretária eletrônica.

detalhes

Amor Sem Escalas
Dirigido por Jason Reitman (1h49min)
Saiba onde está em cartaz

autor

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter

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