
Em participação recente no programa de rádio Morning Becomes Eclectic, Charlotte Gainsbourg foi perguntada sobre as semelhanças entre o processo criativo de concepção de um disco e um filme (recentemente ela ficou famosa pelo papel de She, em Antichrist de Lars Von Trier), e respondeu que a subjetividade era a principal diferença.
Subjetividade essa que torna-se uma questão paradoxal em IRM, terceiro disco de Charlotte, que no mês de janeiro lhe rendeu diversas capas em sites/revistas especializadas, além, obviamente, de reforçar sua “marca” como artista multifacetada.
Voltando à subjetividade, a questão é simples: Charlotte sempre foi mais conhecida (sobretudo no aspecto musical) por ser filha de Serge Gainsbourg. No cinema também carregou marcas de sua mãe, Jane Birkin e de seu marido, Yvan Attal.
Lemon Incest, disco de estreia, foi gravado em 1985 e contou com a participação de Serge na composição. Controverso e ímpar, rendeu discussões sobre pedofilia e incesto. É, sem dúvida, o álbum mais nepotista da cantora. Vinte e um anos depois, Charlotte se aventura novamente com um disco de estúdio, 5:55, que conta com a colaboração do duo francês Air, Jarvis Cocker (vocalista do Pulp) e Neil Hannon. Esteticamente falando, é autoral e traduz bem o espírito pop contemporâneo da musicista. Já em IRM, Gainsbourg conta com outra valiosa colaboração, o americano Beck.
Não há como se dizer que a influência do produtor tomou de assalto todo o disco, entretanto, se comparado ao anterior, 5:55, não há dúvidas que o preciosismo colorido e o forte aspecto rítmico de Beck estão presentes em proeminência.
Master’s Hand abre o disco com arranjos de viola e a inconfundível voz banhada a delays. IRM, faixa título, vem logo em seguida, denotando a tendência de apelo rítmico forte no álbum. Le Chat Du Café Des Artistes é, obviamente, cantada em francês e talvez seja a mais heterogênea de toda a sequência, com um ar retro, franco. In The End vale-se de um xilofone para harmonizar uma melodia de cordas extremamente simples.
Em Heaven Can Wait a influência Beckiana (que também reparte os vocais) se incorpora, com um andamento bem delimitado por cozinha e teclados. Me and Jane Doe poderia fazer Charlotte se enquadrar na mesma categoria Scarlett Johansson, tanto pela ambientação onírica, mas sobretudo pelo timbre vocal. Vanities é a mais introspectiva e complexa, arriscando um passeio pelo eruditismo de violinos. Time of The Assassins resgata 5:55 na dinâmica e cordas (com a participação de Beck nos backin’ vocals).
Tricky Pony é densa, pesada e um dos pontos altos do disco, com guitarras sujas e um espírito do tempo posterior. Greenwich Mean Time continua o boost sonoro, com uma letra perturbadora de autoritarismos poéticos e simetria perfeita. Dandelion é um blues sombrio, dotado de um senso de humor negro. Voyage implica num resgate a aspectos indianos. La Collectionneuse, penúltima faixa, tem uma marcação pesada de baixo em contraposição a voz extremamente melodiosa. Para finalizar, Looking Glass Blues apresenta a faceta dançante, de guitarras com wha wha.
Assim se encerra IRM. É bem verdade que não podem ser feitas comparações com a proposta de primor e unicidade de 5:55, mas, a seu modo, ele cumpre bem o papel de reforço da solidez criativa da artista. Beck, que tem seu dedo perceptível ao longo do trabalho, também fornece robustez e sofisticação aos arranjos, ao passo que colabora com o paradoxo mor, a subjetividade de Charlotte/Serge/Jane.
Para finalizar, veja o vídeo do single Heaven Can Wait:
O disco IRM já está totalmente disponível para audição no site de Charlotte Gainsbourg, Confira.

Curte bares discretos, livrarias e feriados prolongados e vazios. É Jornalista, com pós em Jornalismo e Cultura, amante de literatura, música e tecnologia.

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