
A diretora alemã Doris Dörrie não poupou esforços para que Hanami - Cerejeiras em Flor se tornasse um filme belo, delicado e, ao mesmo tempo, impactante. Sua dedicação deu certo e a obra é uma das melhores já lançadas no Brasil em 2009, tanto devido à perícia técnica quanto pelas atuações fortes e cenas de beleza inquestionável. Infelizmente, com a crise da indústria cinematográfica, não serão muitas as salas a exibí-lo, pois possui características pouco comerciais.
A primeira delas é o fato de que é uma obra cuja narrativa é feita em um ritmo mais lento. Não há explosões nem cenas de ação mirabolantes ou efeitos especiais. Se isso é péssimo para as distribuidoras ou para certa parcela do público, é excelente para a história que é contada e determina o entendimento sobre o filme. Não há a mínima possibilidade de enxergarmos uma crítica do ritmo acelerado que vem sendo imposto a nós, habitantes das megalópoles, sem que isso seja feito de uma forma mais reflexiva e estudada. Felizmente, é isso que Doris e sua competente equipe fazem.
A história se passa na Alemanha dos dias atuais e mostra a rotina do casal Rudi (Elmar Wepper) e Trudi Angermeier (Hannelore Elsner). Os dois vivem numa pequena cidade do interior do país, cercados por campos floridos. Trudi fica sabendo, através de dois médicos, que o marido possui uma grave doença e é incentivada por estes a viajar com ele e aproveitar o tempo que lhe resta em sua companhia. Muito triste, ela decide não contar nem a ele e nem a ninguém sobre a doença. Incentiva-o a viajarem juntos até Berlim e rever os filhos Karolin (Birgit Minichmayr) e Klaus (Felix Eitner).
Nesse encontro, acontece um estranhamento de gerações que tem sido cada vez mais frequente entre pais e filhos da década atual. Os jovens não gostam da companhia dos idosos e são extremamente desrespeitosos, deixando-os de lado e não dando a mínima atenção. Em certo momento, Rudi chega a dizer: 'nossos filhos não tem tempo para nós'. E a filha dele, Karolin, quando perguntada pela namorada sobre como as duas seriam quando envelhecessem, chega a dizer: 'não vamos envelhecer'. Sim, o casal de filhos age como se os pais fossem eternos e Rudi e Trudi são desprezados até mesmo pelos netos, que não largam o Game Boy. Em certo ponto da narrativa, os laços de amizade passam a ter importância maior que os de sangue.
Em vários momentos, a obra critica claramente a diversos aspectos da pós-modernidade em que vivemos. Eles estão em pequenas mensagens simbólicas: quatro controles remoto; um lenço amarrado num poste, que ninguém vê; uma mosca pousada na janela, indiferente a tudo que tem a seu redor. E esse pensamento se expande, na intensa valorização feita das paisagens naturais em detrimento daquelas construídas pelo homem. Desde o primeiro minuto do filme, temos desenhos e belas fotografias do Monte Fuji. A medida que a narrativa se desenrola, aparecem campos vastos e abertos, além de céus muito azuis. Já quando a narrativa passa a acontecer no Japão, o contraste é gritante. A paisagem, que antes nos dava uma sensação de conforto, passa a nos sufocar. Filmando de baixo pra cima e circulando com a câmera em 180 graus, a diretora nos dá a sensação de angústia e mostra o sofrimento dos habitantes da megalópole, com os apartamentos mínimos, as luzes enlouquecedoras e o trabalho quase escravo, onde nem fins de semana são poupados. Sentimos, levemente, o desconforto dos personagens.
Predomina o uso de ângulos bem abertos, que reforçam a ideia de uma história sendo contada num ritmo mais devagar. Mas o interessante é perceber que, mesmo em diálogos ou em momentos do filme que a diretora poderia usar um plano mais fechado, isso não acontece. Os close-ups são reservados a aqueles momentos em que é essencial que captemos no rosto dos protagonistas o que estão sentindo. Fora isso, o máximo que Doris coloca a câmera próximo dos atores é da cintura pra cima.
Um outro recurso de exaltação do ritmo menos acelerado dentro do filme foi o fato de que Trudi é apaixonada pelo butô, dança japonesa composta por movimentos lentos e cheios de significado, com o objetivo de contar histórias e expressar alegrias e tristezas que vão no coração dos bailarinos. Começamos a conhecer e admirar a história dessa dança quando vemos Tadashi Endo no palco, em participação especial, executando-a de uma forma tão pessoal que quase conseguimos entender o que ele está tentando nos dizer por meio dos movimentos. Mas só entendemos realmente a profundidade desta arte quando vemos Yu (Aya Irizuki) executá-la e cria-se, entre atriz e público, um laço de cumplicidade.
A trilha sonora também contribui decisivamente para ditar o ritmo. São músicas instrumentais e incidentais que remetem, principalmente, à cultura japonesa. São melodias singelas, em que predominam o uso de instrumentos como harpas, teclados e flautas. Nada das bateriais, guitarras ocidentais ou do agitado rock 'n'roll. De todas as músicas, a mais conhecida, com certeza, é Fortune Cookie, do Pizzicato Five.
Por fim, o principal motivo pelo qual podemos considerar que Hanami não será um sucesso comercial é o fato de que conta uma história triste, de dor e luto. É uma reflexão comedida e emocionante sobre a morte, a única certeza que temos, mas o assunto sobre o qual mais se evita conversar. E apesar de ser belíssimo o conceito de 'amor além da vida', o filme traz à tona o arrependimento que sempre sentimos quando perdemos algum ente querido. 'Poderíamos ter feito algo de diferente se soubéssemos o que ia acontecer?' é a questão que sai ecoando em nossos ouvidos, quando deixamos o cinema. E muita gente não quer pensar sobre isso.
Em tempo: evitem ler a sinopse do filme. Ela conta muito mais sobre ele do que este texto aqui. E além do que vocês gostariam de saber. O mesmo vale pro trailer.
Hanami - Cerejeiras em Flor
Dirigido por Doris Dörrie (2h 07min)

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.

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