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Marco de Curtis

O Girassol na Ventania e Outras Histórias, por Marco de Curtis

Literatura \ por Priscila Armani \ 08.02.2010

Marco de Curtis, autor de O Girassol na Ventania E Outras Histórias, da editora Dublinense

A editora Dublinense prossegue em sua jornada audaciosa, apostando nos novos talentos da literatura brasileira. Dessa vez, temos a prosa melancólica de Marco de Curtis no envolvente O Girassol na Ventania e Outras Histórias. O livro traz, divididos em duas partes, cinco contos e duas novelas.

A obra, lançada recentemente, tem como sua principal característica o fato de deixar o leitor cativado de tal forma que o faz desejar ler suas 272 páginas de um fôlego só. O Opperaa conversou com o escritor e abordou temas pertinentes a esse livro como, por exemplo, a dor da perda, o saudosismo, a grande necessidade contemporânea de se consumir e até mesmo um pouquinho de cinema e entretenimento nos dias de hoje. Confira:  

Marco, o que te levou a escolher esses contos e ordená-los dessa forma no livro? Foram todos escritos especialmente para essa obra ou houve uma seleção entre contos pré-existentes? E ainda, porque o livro é dividido entre duas partes? Pergunto isso porque não parece haver nenhum tipo de relação cronológica ou com o conteúdo dos contos que tenha definido isso.

Escolhi esses contos a fim de conferir certa unidade ao livro. Perdas afetivas é a temática encontrada em todos eles. E, sim, os contos foram escritos especialmente para esse livro. A ideia de dividí-lo em duas partes é apenas uma advertência ao leitor quanto ao gênero. A primeira parte são cinco contos, e a segunda contém duas pequenas novelas. E o leitor cuja leitura seguir ordenadamente a sequência delineada no livro será contemplado pela percepção do entrelaçamento entre as narrativas, pela ideia do todo, ideia com a qual me preocupei.

Todos os contos possuem algum tipo de relação com a finitude ou a morte em seu enredo. Você, pessoalmente, possui perdas a que deu vazão, de alguma forma, nos contos? E como escritor, qual sua relação com os personagens? Você também sente, assim como o leitor, a morte de cada um ou o luto vivenciado pela morte de um ente querido?

A morte e a ruptura de laços afetivos são experiências universais e indissociáveis da existência humana; com certeza, por isso, tantos escritores se ocupem delas. E, creio eu, vivenciá-las, ainda que em termos ficcionais, talvez nos prepare um pouco melhor para quando essas experiências se fizerem presentes em nossas vidas. Obviamente, sou sensível ao “assassinato” de meus personagens, ou quando os faço viver uma situação extrema. Não há como não sê-lo, pois, através da imaginação, damos vida a essas criaturas e, assim como na mente de leitor, crio uma empatia por elas e uma espécie de vínculo é formado. Penso nos meus personagens como se fossem meus amigos, amigos íntimos.

Em nenhuma das histórias temos o tradicional "final feliz", sendo todos os enredos muito próximos do cotidiano. Porque essa opção? Foi algo intencional? O que você quis retratar nessas histórias? 

A proximidade do cotidiano se dá por duas razões. Todas as narrativas se passam no presente, nos dias de hoje; a segunda razão é a linguagem da qual faço uso, buscando no realismo a ambiência das narrativas. E ainda que não tenhamos finais felizes nas histórias, acredito que haja luz em meio a elas, pois além do humor e da ironia, há narrativas em que os personagens superam suas tragédias pessoais. Contudo, sou obrigado a concordar que a maioria das histórias tem um caráter existencialmente árido, melancólico. Creio que isso seja uma sina entre escritores. Enquanto escrevia esse livro, li uma série de contistas nacionais que, deliberadamente ou não, trilharam por esse caminho. Milton Hatoum, Cíntia Moscovich, Paulo Scott, Altair Martins, Ronaldo Correia de Brito, Daniel Galera; enfim, desde o início até a conclusão do livro, foram cinco anos, e a lista de contistas lidos foi imensa. Aliás, quanto à inexistência de finais felizes, penso que estamos bem acompanhados. Dizem que, quando perguntado sobre por que suas palavras eram tão escuras, Joyce teria respondido que a escuridão também faz parte da existência humana.

Em muitos dos textos percebemos claramente uma crítica à sociedade contemporânea e ao consumo desenfreado que temos experimentado nos dias de hoje. Você quer que o seu leitor consiga refletir a respeito dessa turbulenta fase que estamos enfrentando a partir do seu livro?

Sim, acredito que o escritor, assim como qualquer outro profissional vinculado à produção cultural, deva estar comprometido socialmente com sua época e com seus semelhantes, não podendo descartar o quão fazemos parte de um processo civilizatório, processo que está em andamento e cheio de lacunas no que se refere a estender nossas conquistas culturais e tecnológicas à sociedade como um todo. Creio que a literatura, a boa literatura, não deva ser, comercialmente, comprometida. Defender esse tipo de ideia incorre em riscos, mas é a única forma de possuir certa autonomia e sustentar um posicionamento crítico. Penso que, além de produções literárias deliberadamente comerciais, já há uma série de programas televisivos e filmes cujo único intuito, além de proporcionar entretenimento (de qualidade questionável), é o de gerar lucros a seus patrocinadores. Numa época em que o lucro parece ser a única coisa a legitimar os empreendimentos culturais, acredito que é dever de todo adulto que se preze intelectualmente estar atento aos interesses daqueles que estão produzindo cultura e entretenimento.

Você escreveu 'Beijos de Borboleta' inspirado em algum caso de violência recente que tenha repercutido na mídia? Pergunto isso porque os casos de Isabela Nardoni e João Hélio são emblemáticos nesse sentido.

Sim e não. Creio que os casos citados são diametralmente opostos. No caso da Isabela, a violência sofrida pela criança partiu de seus próprios pais; já o caso de João Hélio é o típico caso de violência urbana, violência que busquei retratar no conto. Aliás, a ideia de escrevê-lo foi deliberadamente essa: advertir a todos o quão não devemos nos acostumar com a violência urbana. Talvez, mais do que isso, fazer com que as pessoas se apercebam que ela faz com que vivamos, cotidianamente, no limiar de uma tragédia. No dia a dia, nos esquecemos desse fato.

'O velho, o menino e o casarão' passa ao leitor certo saudosismo e saudade, sendo um texto muito pessoal. Se inspirou em alguém especial para escrevê-lo? Seria o Sérgio Brum, a quem o dedica ou são apenas lembranças suas da antiga Porto Alegre que vem à tona nele? 

'O velho, o menino e o casarão' é o conto mais antigo do livro, e tenho um apreço especial por ele. Após a leitura desse texto, tanto o Charles Kiefer quanto o Rodrigo Rosp − editor da Dublinense − disseram que era a melhor narrativa da obra. Nele, descrevo alguns episódios baseados em minhas lembranças de infância, e o velho, protagonista da narrativa, foi inspirado na imagem de meu avô (a quem dedico o conto); isso tudo, obviamente, sob o viés da ficção, com eventos narrados sem qualquer vínculo com o meu passado pessoal. Aliás, no conto, faço uma homenagem a um grande contista gaúcho, Simões Lopes Neto, escritor cuja obra nos legou o registro da cultura gaúcha do início do século passado.

Em 'Um Ajuste de Contos' você faz uma crítica aos plagiadores contemporâneos, que encontram consolo no crtl C crtl V para suas próprias ignorâncias? 

Mais do que uma crítica ao ato de plagiar alguma obra, a intenção de escrever essa narrativa foi a de mostrar que é inerente ao bom convívio humano um mínimo de comprometimento ético para com os outros. Fausto, o protagonista da narrativa, é o avesso disso, é um solipsista − crê que seu umbigo é o centro do universo −, um malandro para quem o outro é apenas alguém a ser subjugado. Ele carrega a denúncia de que há um excesso de malandragem no mundo e torna evidente o quão isso é um sintoma da psicopatologia de nossa época. A bem da verdade, Fausto é, como diz o narrador, “um tolo escravizado pelo que ele pensa que os outros pensam a seu respeito”.

Ainda nesse mesmo conto, você opta por falar e explicar, através dos e-mails que o personagem Henrique manda, a respeito das outras histórias do livro. Por que decidiu fazer isso?

Quis homenagear tanto o leitor que tem apreço pela literatura, como a própria literatura, criando uma narrativa que o convidasse a refletir sobre a produção ficcional, sobre o ofício de escrever e sobre os contos do próprio livro. Nessa novela, além das citações, da enunciação de alguns escritores e de algumas referencias a fatos literários, há, espalhados na narrativa, uma série de títulos de livros de novos autores brasileiros. É quase uma brincadeira com o leitor. Fiz isso a fim de demonstrar o vínculo que a literatura pode ter com a realidade. Creio que hoje a criação literária − assim como a filosofia no século passado e no presente − tem sido subjugada por um argumento falacioso: o de não possuir nenhum tipo de uso prático em nossas vidas. É como se a leitura de um romance (assim como a de um filósofo) fosse algo passivo e sem qualquer ganho existencial. Nesse sentido, acredito que, como afirma Harold Bloom, a boa literatura nos possibilite acréscimos de consciência; algo que, embora não seja mensurável, nos torne mais aptos a enfrentar os percalços da existência.

Numa época em que as formas de entretenimento são cada vez mais simplórias (cito reality shows, blockbusters, programas de auditório, etc.) − e cultural e existencialmente irrelevantes −, é uma questão lógica afirmar que a leitura de um bom livro é mais vantajosa do que passar horas em frente à tevê ou sair de casa para ver um blockbuster. Quer um bom exemplo? Avatar. O filme é emblemático quanto a isso. Tem faturado horrores e atraído multidões, mas, hipoteticamente, se eu tivesse naufragado no Titanic, preferiria levar qualquer bom romance a uma cópia do filme. É, a meu ver, uma (péssima) mistura de “Os herculóides” e “Daniel Boone” com “Romeu e Julieta”; uma megaprodução ficcional que, embora tenha seus méritos quanto a inovações tecnológicas, restringe-se a condutas politicamente corretas e premissas sociologicamente datadas. Não bastasse isso, possui um roteiro tão repleto de clichês que subjuga infantilmente a inteligência do público, a ponto, creio eu, de entediar qualquer pré-adolescente com QI um pouco acima da média. Enfim, é o exemplo das razões pelas quais, infelizmente, adultos civilizados e inteligentes têm deixado a (boa) ficção de lado.

detalhes

O Girassol na Ventania e Outras Histórias
Marco de Curtis
Saiba mais sobre a obra no site da editora Dublinense

autor

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter

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