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Reviews // Literatura

Literatura \ por Salomão Terra \ 04.03.2010

Fabrício Corsaletti

Fabrício Corsaletti apresenta em Esquimó belos poemas e inúmeras referências

Reunindo textos de 2006 a 2009, o autor lança Esquimó, uma obra de poemas, significações e múltiplas referências.

Fabrício Corsaletti

Em 1989, Bob Dylan lançava seu 26º álbum de estúdio, Oh Mercy. Uma das faixas, a primeira a se tornar single, fora intitulada Everything is Broken. Certa vez, o músico disse que críticos poderiam não apreciar a canção, por não ser necessariamente autobiográfica, mas que, independente desta leitura, a faixa continha  trechos de sua vida.

Everything is Broken também é título de poema que abre Esquimó, livro recém lançado do escritor paulista Fabrício Corsaletti. Ele, que se articula como umas das principais vozes na poesia contemporânea do Brasil, reuniu para a composição 60 poemas escritos entre 2006 e 2009.

Voltando a Everything is..., o poema, escrito em primeira pessoa, poderia ser considerada uma ode ao músico norte-americano? “A rua está quebrada / Minhas botas estão quebradas / Minha Voz está quebrada...”. Desta forma, Corsaletti pinta um quadro narrativo quase retratual do universo de Bob. Em seguida, o autor propõe um jogo de leitura e produção de significados. Genial. A série leva o nome de Variações. São ao todo seis pequenos textos, de duas partes com contrapontos frasais, como:

Variações nº 5

1
o caminho é sempre o mesmo
os pés são sempre os mesmos
os pensamentos e os sapatos são outros

2
o caminho é sempre outro
os pés são sempre outros
os pensamentos e os sapatos são os mesmos

Prosseguindo, M e O Que Quero de Você são construções objetivas, de sintaxe simples e cativantes, em que o autor se vale para jogar ao primeiro plano a figura feminina, de forma discreta e com personagens quase oníricas. Corsaletti prossegue seu caminho pressupostamente autobiográfico, desta vez apostando em memórias enraizadas nos aspectos familiares e infantis. São recortes belíssimos nos quais o leitor pode projetar-se.

Culpa inicia uma sequência de quatro poemas mais introspectivos e de cores cinzentas. Nos dois últimos textos, em específico, há um jogo de hipérboles, resgatando versos em repetições marcantes. Esquimó (uma referência a Quinn the Eskimo, de Dylan) marca a virada da publicação e sequência de poemas de métricas quase padronizadas, que culminam em De Março a Junho e às Vezes em Setembro. Aqui, talvez tenhamos uns dos pontos mais altos, em que Corsaletti mostra sua proficiência na construção de versos e rimas complexas, mas ao mesmo tempo enxutas e envolventes.

No trecho final, resgatam-se temáticas, como no exemplo de Penúltimo Poema Sobre Meus Pais, em mais uma alusão ao aspecto familiar, desta vez menos prosaica e mais iconoclasta. Pleno Agosto também relembra De Março a Junho em sua forma. Nos últimos momentos, este jogo de imagens e referências meta-textuais abre-se para um campo de explanações nítidas. Em Hoje Foi Minha Última Sessão ele cita sua referência musical de forma explícita: “...jamais deixaram de cultivar / este delicioso rábano de raiz curta e carnosa / grato a Bob Dylan”. Já em Plano, reforça sua admiração à atriz francesa Eva Green, também já referenciada em outros momentos.

Desta forma, Esquimó se articula como uma leitura cheia de surpresas e agradáveis passagens, em que Fabrício Corsaletti mostra como sabe lidar com aspectos formais, conceituais e de significação, alçando a poesia ao seu estado mais confortável, o da identificação intuitiva.

Detalhes

Confira mais sobre Esquimó no site da Cia das Letras.

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