
Scott Cooper possui uma experiência mínima em Hollywood. Sua primeira aparição como ator tem pouco mais de dez anos. E como cineasta Coração Louco é sua primeira aventura. Escreveu o roteiro juntamente com Thomas Cobb, autor do livro que deu origem ao filme. E a iniciativa acabou dando bastante certo e resultando em três indicações ao Oscar: Melhor Canção Original, Melhor Ator e Melhor Atriz Coadjuvante. As duas primeiras se converteram, efetivamente, em prêmios.
Seria sorte de principiante dele? Talvez. Fato é que Coração Louco comoveu os durões jurados da Academia. E é considerado pela maior parte das pessoas como "O Lutador" desse ano. Isso porque, assim como o filme de Mickey Rourke, é uma trajetória de superação, um clichê conhecido mas bem executado, e por um ator que, apesar de indicado quatro vezes antes, nunca foi levado muito a sério. Bridges tem uma carreira bem mais extensa que a do diretor, mas, ainda assim, pouco reconhecida. O prêmio foi mais pelo conjunto de sua obra do que pela interpretação em si.
No filme, ele é Bad Blake, um cantor de música country que já esteve no auge de sua carreira e agora experimenta o amargo fundo do poço. E este tem gosto de whisky. Alcoólotra, ele faz uma turnê pelo sul dos Estados Unidos, em bares pequenos, em busca de dinheiro e bebidas de graça. Passa por todo o tipo de lugares. E conhece um pianista simpático e talentoso que lhe pede que conceda entrevista a sua sobrinha jornalista. Apesar de estar acabado, ainda há pessoas que reconhecem seu talento e, inclusive, são suas fãs. Ele não dá entrevista há anos mas, em consideração ao pianista, decide falar.
Não é um filme especial em muitos aspectos. É filmado de uma forma muito convencional: quando o cantor está na estrada, os ângulos são amplos e mostram as belas e áridas paisagens texanas. Quando ele está no palco, a câmera o filma de trás e passa por ele num ângulo de 180º, várias vezes. De noite, no quarto, a luz focaliza seu rosto e o vemos equilibrar seu copo de whisky no peito. E é isso. Alguns closes, plongées, nada mais.
Toda a força dessa obra está, única e exclusivamente, dividida entre dois fatores: a trilha sonora e as atuações. Isso tanto é verdade que foram justamente nessas categorias as indicações. As músicas compostas para o filme são belíssimas e bem executadas pelo próprio Bridges. The Weary Kind não é nem a melhor delas, diga-se de passagem. Hold On You e Fallin’ & Flyin’ são, harmonicamente falando, bem mais fortes. Mas a primeira é que foi a indicada por ter sido nela que o personagem passou a maior parte do filme trabalhando. As outras o escutamos executar em seus shows durante toda a projeção. No geral, é um filme envolvente por ser bastante musical, com direito a uma palhinha de Robert Duvall inclusive.
Jeff Bridges e Maggie Gyllenhaal estão bons, ela como dedicada mãe de um garotinho e que não quer mais cometer erros, ele, o clássico alcoólotra, vomitando para todos os lados. Robert Duvall, apesar de aparecer mais pro final do filme, também está muito bem. E Colin Farrell dá um novo significado à expressão "clichê ambulante" com sua atuação pífia, bem de acordo com o que pede o seu personagem. Chega a ser engraçado. Para os brasileiros, em particular, ele lembrará bastante certos artistas nacionais.
Por causa desses dois fatores, Coração Louco é um filme que vale a pena ver. A forma como as canções se encaixam no cotidiano do cantor, seu sofrimento e tudo pelo que passa constroem uma narrativa clássica. Crédito para Cooper e, principalmente, para Stephen Bruton, T Bone Burnett e Ryan Bingham. Mas não vá com expectativas demais. Ou se frustrará inevitavelmente. Vá esperando ver um bom filme. E é isso que terá.
Ouça Fallin’ & Flyin’ e confira a qualidade da trilha sonora do filme:

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.
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