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Reviews // Literatura

Literatura \ por Salomão Terra \ 05.07.2010

Meio-dia Alguna Poesía de Fortaleza

Meio-dia e as poesias da cidade de Fortaleza

Edição bilíngue reúne textos de 12 escritores que têm em Fortaleza sua coerência criativa

Meio Dia - alguna poesía de Fortaleza

Sintetizar em uma só obra a polifonia literária é tarefa de edição árdua. Aglutinar o trabalho de diversos poetas, tento como fio condutor localização geográfica, ou o apreço pela cidade e seus tipos, é ainda mais complexo.

É neste sentido que Diego Vinhas reúne, em Meio-dia – Alguna Poesía de Fortaleza, cerca de 60 textos (poéticos e nas mais diversas formas) dos escritores Carlos Augusto Lima, Henrique Dídimo, Rodrigo Marques, Virna Teixeira, Eli Castro, Manoel Ricardo de Lima, Eduardo Jorge, Rodrigo Magalhães, Diana Mello, Ruy Vasconcelos, Júlio Lira e Cândido Rolim.

A publicação foi viabilizada com o prêmio do edital de Incentivo à Literatura da Prefeitura Municipal de Fortaleza, tendo como editora a argentina Ediciones Vox, que inclui versão bilíngue.

Em sua maioria, os autores têm na cidade de Fortaleza uma ligação biográfica, embora eventualmente possam não fazer de lá sua cidade residente, como é o caso de Virna Teixeira, que trocou há algum tempo sua terra natal por São Paulo ou Eduardo Jorge, hoje morador de Belo Horizonte. Mas há que se dizer que, mesmo a despeito da localização física, há em Meio-dia um sentimento que perpassa pelo aspecto urbano, com peculiaridades de narrativas que carregam em seus versos a multiplicidade do ambiente urbano.

A exemplo desta máxima, Henrique Dídimo abre os trabalhos com um texto praticamente cinematográfico. Em Ano Zero Cena Um demonstra seu background em versos como: “Prédios desabam em close / : macro nos olhos, fusão com poeira e silhueta de gente / corte seco”. Vale lembrar, que ele também atua como videomaker, além de incursionar academicamente pelo campo da Antropologia da Imagem.

Já Eduardo Jorge faz de seu texto um recorte urbano para fora de si, como é o caso de Um Postal Carolina, em que o autor apropria-se de uma passagem para construir um microuniverso de personagens quase nulas. Carlos Augusto Lima, em seguida, aparece para brincar com o aspecto formal, em que pontos, vírgulas ou quaisquer outros recursos servem ao seu ofício como um labirinto urbano de ruas e possibilidades inesgotáveis.

Já na poesia de Rodrigo Magalhães, os tipos são marcantes e inquestionáveis, como em Novo Exemplo Para Freud, partindo de um retrato comum, de cena do trânsito de uma metrópole, para universo profundo de maniqueismo e palavras breves. Em “Estação Blitz”, texto de Rodrigo Marques, tem-se a ligação com a localidade resgatada em versos como “'Identificação, por favor'. Diz o pássaro / Nada posso negar ao pássaro que cisma na terra. / Pois o chão, o chão onde vivo, sempre necessita de vôo e canto. / (Entrego-lhe os documentos)”.

Diana Mello, a primeira voz feminina, aparece logo em seguida com uma poesia de tom quase prosaico, que acima de tudo vale-se do ritmo da cidade para se construir, como é o caso do superpovoado texto Bate o Vento Na Poeira. Virna Teixeira vem logo em seguida e brinda o leitor com poesia homônima ao título da obra: “Beira de viaduto mendigo descalço / Televisão nos braços / súbito, arremessada avenida abaixo / cacos carros – veloz disputa dos pedaços, asfalto / enquanto esfregar de mãos os passos sem pressa”. Em Ruas de Aldeotas, segundo texto de Ruy Vasconcelos, há harmonia métrica com as linhas da cidade, numa poesia de espaços – físicos – bem definidos, mas temática reflexiva e pouco óbvia, assim como acontece com Eli Castro, que vale-se das formas de seu texto numa arquitetura de palavras e sentidos.

Júlio Lira mergulha ainda mais no cosmos da cidade, com textos que “rasuram o tecido urbano”, como dito em seu perfil. Arquitetura Para o Bem Comum sintetiza isto, partindo de um título amplo para o espaço mais íntimo. Manoel Ricardo de Lima e Cândido Rolim encerram a obra. O primeiro calcando-se no sentidos enquanto o segundo em um universo de abstrações peculiares à mente do homem urbano contemporâneo.

É desta forma que Meio-dia – Alguna Poesía de Fortaleza explora todos os viés possíveis de um universo tão rico quanto a cena literária de uma cidade e o laço semântico que une os textos de toda uma geração de escritores notadamente multifacetados.

Detalhes

Meio-dia: Alguna Poesía de Fortaleza. Traduccion: Sílvia López. Seleccion y Organización: Diego Vinhas. Fortaleza 2009.

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