
Poeta nascido em Fortaleza, Carlos Augusto Lima tem intensa ativida aos entornos da Literatura, com artigos publicados em revistas e jornais, além de uma pequena plaquete chamada OBJETOS (Alpharrábio Editora, 2002), desaparecida, e Vinte e Sete de Janeiro (Lumme Editor,SP).
Confira entrevista com o autor sobre Manual de Acrobacias n.1 (Editora da Casa/Editora da Vila,2009), sua última obra, e as percepções sobre o cenário da Poesia e Literatura.
Meu primeiro impacto na leitura de Manual de Acrobacias n1, foi, obviamente, o aspecto formal. Foi uma surpresa também, na medida em que me revelou uma outra perspectiva poética, a dos detalhes. Como foi o insight para a escrita da obra? A que ela se propõe?
A idéia surgiu como uma tentativa de sobrevivência, diante de uma série de circunstâncias, num determinado momento da vida. Também como um incômodo, uma provocação. No final de 2007, resolvi ofertar a 72 pessoas, todas presentes na minha lista de contatos de e-mail (esses os nossos leitores possíveis) e os repassei devidamente dedicados, com afeto e generosidade. O problema é que o mesmo poema foi ofertado. Era o mesmo poema, mas nenhum deles era igual ao outro. Dentro do mesmo poema havia um jogo, um exercício de variações acrobáticas, que foram surgindo entre a naturalidade e o artifício, o cálculo e, o que muito me chamou a atenção, a exaustão, o cansaço do próprio poema. O livro parte também muito disso: do esgotamento da própria idéia do que é o livro de poemas, da previsibilidade deste e sua realização. O livro é um enfado para quem lê e para mim que o montei, que o reli, revi, publiquei. Quis levar esse único texto ao completo esgotamento. Quis ver até onde era possível ir.
Sobre a narrativa em si, Manual de Acrobacias n1 é tão amplo quanto possível. Se reinventa a cada repetição também. Qual a coerência que une os textos, além de sua forma?
Talvez a coerência do afeto, de uma verdadeira generosidade, nesse ato absurdo de dar um poema, ofertar algo tão inofertável, inútil, dispensável, o memorável “inutensílio” leminskiano. Uma coerência que se estende para aquilo que é afeto, mas, também, para o que é provocação. A provocação do poema para surgir outro poema. Já que você falou em “reinvenção”, preciso assinalar o curioso processo que desencadeou essa experiência, que não findou com a publicação do livro.
Em julho do ano passado, numa boa conversa, um amigo poeta chamado Danilo Bueno me confessou que havia ficado intrigado com a repetição presente no “manual” e, além, bastante inquietado com o uso de algumas palavras, algumas soluções presentes nos poemas e, meio sem jeito, acabou confessando que havia feito sua própria versão da “acrobacia”. De minha parte, achei o gesto maravilhoso e, de pronto, resolvi postar a versão de Danilo no meu blog. Para minha surpresa, a partir daí passei a receber novas e novas versões das acrobacias, num descontrole fabuloso. Não pedi a ninguém, não sugeri. As pessoas foram provocadas à medida que eu ia postando cada uma das versões que me chegavam. E outra e mais outra e mais. Algumas muito próximas dos originais, outras completamente distantes. Chamei a série de “Este poema era meu. Agora não é mais.” Perdi meu poema. Ele se transformou em outro e isso é muito interessante. O poema desapareceu, criou outra vida. Penso que a realização plena dessa experiência se dará quando alguém publicar sua versão em algum livro seu. Estarei feliz.
Do ponto de vista editorial, também é impactante. Você acha que a poesia tem necessidade de se auto-reinventar, na busca por sua própria subsistência num país como o Brasil?
Não sei que tipo de subsistência você trata. Se for a subsistência financeira isso é uma impossibilidade, não só no Brasil, mas em qualquer lugar do planeta, pois o mercado que trata a poesia é o mercado das trocas simbólicas de linguagem, dela mesma, do texto, das tensões deste dentro do seu tempo. E é disso que o poeta deve se preocupar: essa briga com o tempo. Por que, o que percebo, é um certo paradoxo. Note: a poesia não acompanha, por um lado, o tempo veloz da informação acelerada, quase esquizofrênica, emergencial em que vivemos. O gesto do poema é o da calma, da reflexão e do cuidado que estamos perdendo a cada dia. Por outro lado, a linguagem da informação de tão urgente, se tornou estúpida, rasteira, cretina. Daí, a linguagem do poema dispara, se reinventa sempre, vai além, está à frente do tempo, cumpre a sua função, e a maioria dos leitores, tão amansados pela linguagem estúpida do mundo da informação, não acompanha o poema. Percebe? Como solucionar esse impasse? Solução não é a questão.
Conte-nos um pouco sobre seu processo de escrita. Há algum projeto literário futuro em progressão?
Na verdade não tenho nenhum processo de escrita, se pensarmos em método, disciplina. Aquela coisa cabralina de sentar defronte à mesa, olhar para o branco do papel e escrever, com todas as forças da racionalidade!.... o quê, acredito, era uma lenda do próprio João Cabral. O que existe é uma certa desordem: rabiscos, poemas que começam e não terminam, uma frase que escuto de alguém (e adoro isso: roubar frases dos outros), uma frase num livro. Um absurdo de coisas que me chegam e que, depois, vou tentar sistematizar no poema. Porque quem escreve sempre vai se ajoelhar à linguagem, ao texto. Você pode ser tomado do maior arrebatamento do mundo, mas você sempre vai ter que pedir permissão ao poema, para tratar desse arrebatamento. E ele é um senhor muito severo, muito exigente. Implacável.
Projetos futuros? Todos os projetos do mundo. Ainda para este segundo semestre, vou publicar 3 livros de poemas. Cada livro tem, no máximo, 3 poemas. Três projetos gráficos de criação, uma provocação também para os editores e designers. Enquanto se discute a morte do livro, o que é uma discussão do mercado, ou das pessoas que não gostam de ler, eu desmonto e estico as possibilidade no papel.
Carlos Augusto Lima também está presente no Twitter. Aproveite para segui-lo e conhecer mais de seus projetos.
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