
Uma feia parede de tijolos. Uma mesa quadrada de madeira. Duas cadeiras desiguais. Num canto do cômodo, um aparelho de som. No outro canto, uma tv. No centro da cena, uma mulher, usando preto, com os cabelos revoltos. Nas suas faces, podemos ver a insanidade começando a se desenhar.
Assim começa F.A.N. - Feliz Ano Novo, peça dirigida por Ulisses Lopes e com texto da dramaturga e representante argentina da Unesco Lilia Tiki Marchesini. Em cartaz no Satyros, o monólogo é protagonizado por Ingrid Ramos.
Tinha tudo para ser uma peça excepcional. E eu não estou dizendo que não seja. Todos os ingredientes estão lá: o tema interessante, a atuação instigante, um mistério...
Mas o maior problema está no "português traduzido", que acaba por engessar as falas da personagem. Tiram um pouco da espontaneidade e da proximidade da plateia pelo enredo. Porém isso não é algo que venha a impedir nossa conexão emocional com a protagonista.
Ela é uma imigrante ilegal num país de terceiro mundo que confessa para o público suas dores e saudades, fazendo desabafos e contando de seu cotidiano. O tempo todo ela conversa com um parceiro imaginário. Sentimos pena de sua solidão. Não tem nada mais triste do que passar o ano novo sozinha.
A peça termina e com seu desfecho termina a viagem da personagem. A opção é nossa: fazer o percurso junto com ela, ao longo daqueles 50 minutos, ou não.
F.A.N. – Feliz Ano Novo
Espaço dos Satyros Um, pça Roosevelt, 214
Até 30 de setembro
Acesse o site oficial da peça

Priscila Armani é jornalista e apaixonada por cultura. Ela escreve sobre cinema, artes plásticas e teatro. Siga-a no Twitter.
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